2013, junho

2013, junho

Texto incluído na linda#1 impressa.

 

Em junho de 2013, uma série de manifestações tomou as ruas de (aparentemente) todo o Brasil. Em São Paulo, de onde essa onda de protestos parece ter partido, uma miríade de pautas surgiu dos mais distintos partes e interesses. Em meio ao turbilhão que tomou conta da cidade, o prefeito Fernando Haddad, em seu sexto mês frente à Prefeitura, parecia atônito aos acontecimentos, assim como toda a classe política.

Por pressões diversas, a primeira medida tomada, após o descontrole total da situação, foi a revogação da alta do preço da passagem de ônibus. Dali em diante, uma série de medidas passou a tomar a agenda política do município, no sentido de viabilizar as mudanças na qualidade dos transportes públicos que pareciam ser o mote central das manifestações. Dentre elas sobressaiu-se a construção desenfreada de corredores de ônibus e faixas exclusivas, com a premissa de aumentar a velocidade média dos coletivos na capital.

Muitos das faixas e corredores implementados ao longo desses doze meses pós manifestações sofreram modificações durante esse curto período de tempo, sejam de trajeto, de horário de funcionamento e de sinalização.

No final do ano de 2013, a FOLHA DE S. PAULO convidou alguns cientistas políticos a fazerem um balanço do primeiro ano do governo Haddad. Cláudio Gonçalves Couto, professor da FGV-SP, foi um desses pesquisadores a publicarem no jornal suas impressões. Nas análise de Couto, esse primeiro ano foi caracterizado por uma atitude

propensa a assumir riscos, preferindo antes implementar inovações de políticas públicas, que posteriormente terão de ser aprimoradas ou corrigidas, a postergar ações em busca da sua perfectibilidade desde o início”.

Segundo o analista, essa atitude já pudera ser verificada durante a gestão Haddad no Ministério da Educação, quando da implementação do SISU-ENEM, e dos problemas que surgiram à época: “por um lado, isso rendeu críticas a Haddad; por outro lado, viabilizou a implantação do sistema rapidamente, sendo suas imperfeições corrigidas ao longo do processo”.

Mas o que isso tem a ver com a linda, o NME e a convivência humana na produção artística?

Nos primeiros dias do ano (talvez nos últimos de 2013), considerei que queria tentar algo diferente no NME, algo que servisse para manter o grupo ativo nos momentos em que não tínhamos concertos para realizar, algo que pudesse dar outras dimensões ao que vínhamos produzindo, bem como agregar novas pessoas e ideias. Pensei que seria bacana ter uma revista online!

Eu estava em Berlin. Abri o Skype e liguei, como que do nada, para alguns amigos que estavam mais ou menos envolvidos com o NME. A proposta era: escrevermos colunas semanais, sob o meta-tema “cultura eletroacústica”, sendo que a acepção do termo ficaria ao cargo de cada autor. Para a minha surpresa, recebi mais sins que nãos, e em 6 de janeiro estava no ar o primeiro número da nossa linda. Imagino que entre o primeiro convite e a primeira edição não houve sequer dez dias para maturar a ideia; tivemos apenas que lidar com a mudança da frequência inicial semanal para quinzenal nas colunas, já que nenhum dos autores ali pareciam dispostos a uma aventura tão ousada!

Criar a linda não foi muito diferente de criar, desenfreadamente, faixas exclusivas para ônibus na cidade de São Paulo. Há um problema (a inoperância do sistema público de transportes; a ausência de continuidade das ações no NME). Um conjunto de soluções é hipotetizado e posto à prova (aumento drástico da malha de faixas exclusivas para ônibus; criação de um novo suporte de produção). O afinamento deste conjunto de soluções é um passo subsequente e consequente (mudança no horário de funcionamento das faixas, revisão da malha, legislação específica sobre a utilização das faixas por taxis; colunas quinzenais ou mensais, convite a novos escritores, colunas especiais temáticas, produção de bens derivados – como compilações em PDF, CDs com obras compostas para as colunas, artigos para outros meios a partir de discussões originárias das colunas regulares).

A pergunta que se pode fazer é: o que faz que haja continuidade, se ao longo do percurso mudanças substanciais acontecem? Ou ainda, se haverá mudanças tão substanciais, não é melhor prever os problemas de antemão para então implementar as ações de uma forma mais efetiva e sem turbulências?

Mais de 50% dos autores das primeiras edições da linda já não escrevem regularmente para a revista. A estrutura da capa mudou. O editorial mudou. Porém, a força criativa inaugural permanece inalterada (juntar-se a amigos e escrever pretensamente sobre a tal “cultura eletroacústica”). E é esse o ponto que eu queria explicitar aqui: o NME, e a linda consequentemente, é feito de amizades e cumplicidades!

O NME, ele mesmo, surgiu como que espontaneamente, talvez com o plano de criar um espaço democrático para a mostra das nossas novas músicas, mas, com certeza, sem a pretensão de ser o que é hoje, nem a leitura do que ainda pode ser. Mas, não houvesse sido feito, nada (nem o que é hoje, nem o que virá a ser) teria tomado parte:

Por um lado, criticam-se os políticos por pensarem apenas nos resultados imediatos e não avançarem políticas estruturais. Por outro, quando uma política mais ousada começa a ser implementada, critica-se seu executor por já não entregá-la completa e perfeita desde o início.
É o argumento de que enquanto não se resolve o problema inteiro, não se pode resolvê-lo por partes. Em políticas públicas, tal argumento é uma falácia
”, afirma Couto no final do seu artigo.

A linda é nada mais do que uma experiência, uma improvisação coletiva, tocada entre seus colunistas regulares. E somente o jogo e a prática própria da improvisação é que lhe aperfeiçoa. Ou alguém aqui acredita que de aprende a improvisar através de manuais meramente teóricos e especulativos? E é nessa improvisação, nessa heurística aplicada à produção cultural, é que tenho acreditado, e buscado, com ela, as melhorias e implementações nos meus projetos, buscando tornar a linda uma entidade viva e pujante.

 

Tiago de Mello

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