Cores & Valores

Cores & valores

Texto incluído na linda#1, ano 2 (janeiro 2015) e na linda-iv (maio 2015)

Há algum tempo, venho dizendo que as melhores coisas feitas na música brasileira eram (sem ordem crescente) Caetano Veloso, Racionais MC’s e Marli…

Bem, no meu primeiro texto aqui na linda, falei sobre a Marli e seu Maremotrix. Fico muito feliz de ter sido um dos textos mais lidos na revista até hoje! Marli me foi apresentada lá por 2004, quando eu já era o cara com gosto estranho entre os amigos, e fui acompanhando com muito entusiasmo os desenvolveres do projeto. Acho o Maremotrix algo de que se orgulhar!

Já na nossa primeira edição bilíngue, a linda-i, colaborei com um texto que tratava a condição ocidental do Brasil, terminando com uma passagem do Verdade tropical do Caetano Veloso, e a possibilidade do país ser um “ocidente ao ocidente do ocidente”, como discutia o autor.

Caetano e Racionais fizeram parte da minha infância. Caetano sempre foi o ídolo número 1 da minha mãe. E, analisando com distância, fico muito agradecido por ela ter se atualizado do próprio ídolo: muitos dos meus amigos que gostam de Caetano ficaram no Transa e é isso; reclamam do Caetano autorefencialista e controverso dos anos seguintes e atuais; já minha mãe ouvia o Tropicália 2 em pleno começo da década de 90 (o disco foi lançado em 93). Até hoje, quando limpamos a casa e eu sugiro de ouvirmos algo do Caetano, ela sugere discos como O Estrangeiro, ou se propõe a ouvir o que ele tem feito atualmente.

Neste primeiro texto para o segundo ano da linda, gostaria de falar sobre o último disco do Racionais MC’s a partir dessa perspectiva: a perspectiva anti-estanque, que se propõe a ouvir o contemporâneo, antes do saudosismo que parece impetrar a maior parte dos escritos musicais (e não apenas entre os escritores dos clássicos: os contemporâneos não se cansam de escrever sobre os Berios e Ligetis e afins). Assim, o texto que se segue segue como esparsas ideias que venho tendo a partir do contato diário com o Cores & valores, álbum lançado digitalmente no final do ano passado.

Cores & Valores

Autoreferencialidade e atualidade

A primeira coisa que me chamou a atenção no disco foi o despreparo da crítica em receber o trabalho. Não sei se de toda crítica, acompanhei somente aquelas à minha volta. E pude deparar com comentaristas de música em rádios de grandes corporações, chamando o disco de “apenas bom” e dizendo ser uma pena o grupo ser “mal assessorado”, uma vez que em 12 anos, foram capazes apenas “daquilo”. Esse crítico, por fim, analisava uma possível superação dos problemas de ordem socioeconômicas, “agora eles entenderam que o problema não é mais a polícia contra o bandido, o rico contra ‘a gente’, mas que o buraco é mais embaixo e que estamos todos juntos”, dizia ele, algo assim.

Bem, me parece que o buraco é mesmo mais embaixo, mas todas as relações apresentadas no disco são autorreferentes, no sentido em que exploram sentimentos e relações antes discutidos pelo grupo. Se há uma mudança social representada, ela é, claro, fruto das mudanças sociais que aconteceram no Brasil nos últimos 12 anos, mas que já estavam germinadas nos últimos discos do grupo, como a ascensão financeira das pessoas à volta, do desejo de mudança social.

Um exemplo dessa mudança de perspectiva pode ser visto na faixa Eu compro:

Os nego quer algo mais do que um barraco pra dormir
Os nego quer não só viver de aparência
Quer ter roupa, quer ter joia e se incluir
Quer ter euro, quer ter dólar e usufruir

Quem acompanha a carreira do grupo com um pouco de atenção logo se lembrará de uma passagem bastante emblemática da faixa Vida Loka II, do disco anterior:

Às vezes eu acho que todo preto como eu
Só quer um terreno no mato só seu
Sem luxo, descalço, nadar num riacho
Sem fome, Pegando as fruta no cacho
Aí truta – é o que eu acho que eu quero também
Mas em São Paulo Deus é uma nota de 100

Bem, Caetano é repetidas vezes acusado de ser autoreferencialista. Porém, sem que se tome o termo por pejorativo, vejo em Cores & valores uma série de referências aos trabalhos antigos do Racionais, mais ou menos claras, o que já é, por sua vez, uma reutilização de um procedimento anteriormente utilizado pelo grupo.

Auto-sampleamentos, por exemplo, não são nova coisa no grupo: já em Nada como um dia após o outro dia, o álbum de 12 anos atrás, tínhamos sampleamentos de Sobrevivendo no inferno, o álbum anterior do anterior. O que muda aqui, em Cores & valores, é a transformação aplicada: “Na mão de favelado é mó guela“, frase tirada de Vida loka II, neste novo disco vira um mantra, loopado de diferentes formas (como sample mesmo e como texto re-recitado), em diversas faixas do novo álbum.

Ainda na faixa Eu compro, podemos inferir uma outra auto-referência não tão explícita. No primeiro verso da música após o tal mantra, ouve-se:

Olha só aquele shopping, que da hora!
Uns moleques na frente pedindo esmola
De pé no chão, mal vestido, sem comer
Será que alguns que estão ali irão vencer?

Com alguma facilidade, podemos ligar esses versos ao primeiro grande sucesso do grupo, Fim de semana no parque, de 1993:

Olha só aquele clube que da hora,
Olha o pretinho vendo tudo do lado de fora
Nem se lembra do dinheiro que tem que levar
Pro seu pai bem louco gritando dentro do bar
Nem se lembra de ontem de onde o futuro
Ele apenas sonha através do muro…

Neste caso, novamente podemos ver que as relações sociais ditas superadas não são novidade dentro da poesia do grupo. A transformação de problemas não deve ser confundida com as suas soluções.

Além das citações em texto, ou de sampleamento, podemos rever em Cores & valores uma série de elementos já utilizados em discos anteriores, o que nos leva a entendê-lo como um disco experimentador: não apenas repetem-se um ferramentário já conhecido, como também propõem-se de ir além da sua utilização conhecida.

Um desses casos é a voz-de-menino-da-cola (chamarei assim o efeito na voz introduzida no grupo no disco anterior, em faixas como Vivão e vivendo, Eu sou 157, Da ponte pra cá…), que acaba sendo a ferramenta pela qual transformou-se o sample de Na mão de favelado é mó guela: ou seja, você tem dois “conceitos”[1] que se imbricam para gerar um novo; não é apenas samplear o disco anterior nem apenas usar a voz-de-menino-da-cola, mas criar um efeito novo, o meta-conceito.

Pensando em conceitos, outra aparição que não se deixa não reparar é a utilização do som de sinos. Os sinos estão presentes, de maneira mais ou menos arquetípica, em diversas faixas do Sobrevivendo no inferno: seja na abertura e no acompanhamento de piano de Versículo 4 capítulo 3, ou no piano de Tô ouvindo alguém me chamar… Em Cores & valores, os sinos reaparecem nos últimos segundos do disco, como ambientação sonora.

A essa ambientação utilizando soundscape (um conceito?) que é comum ao grupo (como em diversos momentos de Tô ouvindo alguém me chamar, no fim de Fórmula mágica da paz, Expresso da meia-noite…), mistura-se ainda um terceiro conceito: o som de rádio (como em Rapaz comum, Da ponte pra cá, Qual mentira vou acreditar…).

Esse fim, multi-conceitual, poderíamos dizer, trará ainda uma citação cifrada. Na rádio, ouvimos:

Algo me diz que amanhã a coisa irá mudar
Só mesmo um grande amor nos faz ter [capacidade pra viver]

Esses versos são da música Castiçal, de Cassiano. Não foi a primeira vez que o grupo utilizou Cassiano em suas músicas com esse efeito de rádio: em Sou mais você e em Da ponte pra cá já apareciam as suas batidas; mas nunca a voz do cantor, famoso nas décadas de 70 e 80, fora utilizada tão claramente. Colocá-lo assim nos faz remeter, indiretamente (e por isso, talvez eu chamasse essa citação de meta-citação) à Vida loka II:

De teto solar, o luar representa
Ouvindo Cassiano – ah!, os gambé não guenta
Mas se não der, nego, o que é que tem?
O importante é nós aqui, junto ano que vem

Falam do presente, referindo-se ao passado que se referia ao futuro. Tudo isso sem esclarecer muito as relações.

Lançamento digital e forma disco

Lembro que o último lançamento de estúdio do Racionais foi controverso: Nada como um dia após o outro dia (2002) era um CD duplo que vinha com preço sugerido na capa!

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Cores & valores foi lançado apenas virtualmente, nas lojas de distribuição de MP3. Se a atitude de vender um CD com preço sugerido na capa nos surpreende, o mesmo ocorre com um lançamento apenas virtual, sem perspectivas (até o momento) de lançamento físico. Vejo aqui uma posição não estanque no pensar indústria-fonográfica do grupo: teria sido fácil simplesmente repetir a fórmula, ou aplicar outras fórmulas já consolidadas. É claro que lançamentos meramente virtuais estão aos montes ao nosso redor (na música experimental sobremaneira!), mas na música comercial não tenho visto tão facilmente.

Também chama a atenção a distinção claríssima entre Lado A e Lado B, mesmo que se trate aqui de um ajuntado de arquivos digitais que não se separam sequer em pastas diferentes. Funciona mais ou menos assim: as primeiras faixas trazem um Racionais mais próximo ao rap, com batidas mais duras; a partir de O mal e o bem, temos uma inversão: ali o rap mais clássico dá lugar à black music de baile, com batidas mais dançantes e até refrãos cantados:

Uma vida, uma história de vitórias na memória
Igual o livro o mal e o bem
Pro seu bem, pro meu bem
Um espinho, uma rosa, uma trilha
Uma curva perigosa a mais de cem
Pro seu bem, pro meu bem
Céu azul

A Black music não é novidade no trabalho do Racionais e, durante os 12 anos de interrupção atividade do grupo antes do lançamento de Cores & valores, algumas experiências foram feitas nesse sentido, sendo a com maior visibilidade o lançamento da faixa Mulher elétrica, de Mano Brown, feita em conjunto com a Banda Black Rio.

Lembro do lançamento de Mulher elétrica: li em diversos fóruns de discussão que aquilo seria o fim dos Racionais, que o Mano Brown teria se “vendido ao sistema” e até mesmo que era um absurdo “fazer uma música que falasse bem de mulher” (me marcaram muito essas críticas todas! – fui procurar referências, não achei, mas achei isso: Racionais chocam fãs com música romântica demais[2]). Lembro também de ter lido uma entrevista com o Mano Brown à época respondendo a essas críticas. Dizia ele algo como “Sempre ouvimos soul, funk, a black music… A periferia não é só feita de rap!”.

Talvez possamos enxergar esse lado B de Cores & valores como uma resposta a essa crítica, não como uma simples reação, mas como um desenvolvimento de pensamento a partir do que aconteceu quando do lançamento de Mulher elétrica. E, mais uma vez, podemos verificar uma atitude anti-estanque do grupo, procurando fazer uma música do presente, sem se ater simplesmente à tradição e àquilo que já deu certo.

O som-em-si

Lembro de que, quando era muito jovem e ainda estudava violão na escola do bairro, fui a uma palestra do José Ramos Tinhorão, no EM&T. Estava começando a descobrir os estudos da crítica musical e da musicologia, e pensei que seria um ótimo ponto de partida estar com um escritor do tamanho dele. Da palestra toda (que ao que consta era sobre “A canção brasileira”), tudo de que lembro é minha indignação quando ouvi daquele senhor que rap não era canção, pois não havia melodia nem harmonia, era apenas uma poesia sendo recitada e uma batida (acabou que nunca li um sequer livro dele, por puro ranço depois daquele primeiro encontro).

Sem entrar no mérito da canção, o rap é uma manifestação musical, e, como produto da indústria, gera um fonograma, tal qual a tal canção. O fonograma nada mais é do que uma gravação, tratada pelos meios que lhe cabem, e que se apresenta com um certo padrão (o tal padrão da indústria).

Na mesma época do meu encontro fortuito com o Tinhorão, lembro de ter lido na revista Caros Amigos uma entrevista com o produtor musical do Racionais – ou ao menos de alguém próximo a ele (procurei por este artigo na internet e não consegui – a revista bloqueia acesso a artigos antigos aos não-assinantes). Lá pelas tantas, o tal produtor defendia que o esplendoroso sucesso do Racionais naqueles anos (estamos em 2004 mais ou menos) devia-se ao cuidado com a gravação dos discos anteriores (sobremaneira, Sobrevivendo no inferno), bem como a sua mixagem. Afinal, sendo um fonograma, a maior qualidade que se lhe imprimia faria com que a música fosse, por consequência, de maior qualidade também. E a diferença de qualidade de gravação e mixagem de Sobrevivendo aos demais discos de rap da época seria marcante.

Moro na periferia de São Paulo, e, não raro, às sextas-feiras, na madrugada, passam carros com sons turbinados tocando faixas no mais alto volume (as janelas tremem em ressonância). As faixas favoritas parecem ser ainda Vida Loka I e II e Jesus Chorou, embora não tenham descartado sucessos como Diário.

Bem, é sabida a vontade desses condutores de sons motorizados, a de fazer tudo tremer. E é sabido também que sons graves são mais propensos a perpassar paredes[3]. Nada melhor, portanto, que investir em um bom sub-woofer, e escolher um set list afeito ao efeito desejado.

Não acho que os Racionais estejam alheios ao fato de suas músicas fazerem tremer portas e janelas em Pirituba. E pude notar, de cara, um cuidado muito impressionante com os subgraves do novo álbum. Mais do que serem transientes rápidos e comprimidos ligados às batidas do bumbo, desta vez o baixo das faixas é constituído de parciais subgraves sustentados e muito bem definidos.

Fiz uma análise rápida da resposta frequencial das faixas, com uma faixa do Sobrevivendo, uma do Nada como um dia, e duas do novo álbum, a faixa de abertura Cores & valores e a A praça:

Em branco: A praça (2014) Em amarelo: Cores e valores (2014) Em azul:: Vida loka II (2002) Em violeta: Diário de um detento (1997)
Em branco: A praça (2014)
Em amarelo: Cores e valores (2014)
Em azul:: Vida loka II (2002)
Em violeta: Diário de um detento (1997)

As linhas coloridas correspondem, cada uma, à resposta frequencial média de 10 segundos de uma faixa, identificadas abaixo pela cor. São praticamente 20dB de diferença entre os subgraves do Diário para as novas faixas, e 10dB em relação a Vida loka II. Além disso, podemos notar uma diferença nítida entre a ênfase do subgrave dentro da mixagem: ao invés de comprimi-los para procurar um controle tonal mais claro, enfatizá-los e fazer deles um elemento formativo da música, não apenas um acompanhamento. Poderíamos falar da emancipação do subgrave, em um momento em que a compressão paralela com mixes voltadas a celulares e tablets tem extinguido a modelagem dinâmica desta faixa de frequência.

Outro fato que me chamou muito a atenção em relação à mixagem do disco, ao ouvi-lo, foi a espacialização das faixas, a criação da imagem estereofônica. Seja no sampleamento de Na mão de favelado é mó guela, seja nas batidas mais rápidas ou nos soundscapes de A praça, há sempre um elemento transitando entre os canais esquerdo e direito, como que querendo envolver o ouvinte. Essa atmosfera intimista, embora num primeiro momento pareça contraditória pensando nos carros de som turbinado, também dá conta daquele ouvinte de metrô e ônibus, que ouve no fone de ouvido, e torna a sua experiência muito mais interessante e complexa.

Como modo de mensurar isso, e tentar mostrar como o trabalho sobre o som-em-si é muito importante neste álbum, fiz outra rápida análise sobre a diferença entre os sinais do canal esquerdo e o direito. Analisei as 4 músicas acima: basicamente, quanto mais alto o sinal de diferença, mais distintos são os canais.

Cada par de meters representa a soma entre canais esquerdo e direito e a diferença entre esses canais, respectavimente. Da esquerda para a direita: A praça (2014) Cores e valores (2014) Vida loka II (2002) Diário de um detento (1997)
Cada par de meters representa a soma entre canais esquerdo e direito e a diferença entre esses canais, respectavimente. Da esquerda para a direita:
A praça (2014)
Cores e valores (2014)
Vida loka II (2002)
Diário de um detento (1997)

É claro que cada figura aqui demonstrada é apenas um momento dentro da música, mas procurei selecionar uma que não distorcesse muito a média do que acontece ao longo da faixa. Podemos notar, portanto, que as faixas do disco atual prezam pela diferenciação do stereo, dando maior ênfase à separação entre os canais, criando esse tal envolvimento sonoro.

Exploração de conceitos

A partir dos conceitos que apresentei até aqui, gostaria de discutir brevemente a possibilidade de enxergarmos Cores & valores como um disco-conceito, e mais do que isso, como um disco de exploração de conceitos. Já disse aqui que quando falo em conceito, estou me acercando do que falava Luc Ferrari sobre isso. Em uma entrevista, Ferrari fala sobre a sua exploração de conceitos:

[durante a realização da Far West News] eu apliquei todas as minhas ideias: sejam o serialismo, o aleatório, os objetos achados, a tautologia, o minimalismo, a narração, a arte radiofônica. […] Esse trabalho resultou na descoberta da exploração dos meus próprios conceitos. […] Os conceitos são coisas que têm uma certa relevância, mas que eu utilizo usando pinças. […] Conheci bem a época em que se utilizava o conceito pelo conceito, […] e vejo que muitos ficaram presos nessa época. Eu prefiro desmistificar os conceitos e dizer: sim, são interessantes!, mas tenhamos uma certa distância, para que não nos tornemos puristas ou sistemáticos.

(FERRARI apud CAUX, 2002, p. 156, tradução do autor)

Explorar conceitos foi, para Luc Ferrari, uma forma não-estanque de olhar para sua obra e agir sobre ela, e, com isso, criar novas obras. Cores & Valores talvez tenha um pouco desse espírito.

Imagino que passar 12 anos, de certa forma, pensando sobre fazer um novo trabalho seja um trabalho hercúleo, e que acabe gerando uma série de reflexões sobre o que foi feito e sobre o que ainda pode ser feito.

Nas críticas mais superficiais que ouvi sobre o álbum, ressaltava-se a duração total do disco (por volta de 33 minutos), como se isso fosse decorrência de uma certa preguiça na criação das músicas, ou ainda, incapacidade de criar outras músicas que pudessem estar no disco. E não é esse o caso.

Em Cores & valores as faixas são comprimidas ao máximo: não em extensão dinâmica, falo aqui de ideias, de síntese. O discurso racional já está embutido no público, que, de alguma forma, passa a ser redundante nas novas músicas uma extensão sobre determinados temas. Um exemplo claro desta condição é a faixa que encerra o disco: nela, a frase “Baby, vamos fugir desse lugar” é loopada em 3 trechos, que somam 70 segundos de música. E isso corresponde a 30% da duração total da faixa, sem que o discurso se desenvolva propriamente. O que me parece, porém, é que o discurso não precisa se desenvolver literalmente: a simples repetição da frase, associada aos elementos musicais ao redor e ao textos que a articulam, dá conta de criar, na cabeça de cada um, a história que, se fosse contada, levaria uns 6 ou 7 minutos.

Ou seja, cria-se uma música (sobretudo) a partir de um recurso (a repetição, o loop), tornando ele um elemento fundador e articulador da própria canção. Outro exemplo disso pode ser a faixa A praça, em que matérias jornalísticas confundem-se com gravações de soundscape, sons de foley, e gravações do próprio show do Racionais: é a exploração em si do sampleamento, pois não usa-se o sampleamento como artifício, como firula, mas sim como estrutura.

Já falei aqui na linda, mesmo que brevemente, sobre o meu conceito de meta-canção. Uso essa definição para me referir, sobretudo, a uma determinada fase da criação do Caetano Veloso, que talvez comece no Araçá azul e culmine no Livro. Na meta-canção, um elemento da canção (ou periférico a ela) é trazido ao centro da estrutura (ou ausentado dela, no caso de elementos tradicionalmente formantes da canção), e dele (ou de sua ausência) decorrem um sem número de escolhas.

Bem, talvez Cores & valores seja um disco de meta-rap: embora ele possa (e deva) ser escutado como um ótimo disco de rap, é importante também entender as condensações que existem ali, como em uma refeição de Ferran Adrià, nas abstrações de Paul Klee, nos diálogos internos do Velho e o mar, e nas Far west news de Luc Ferrari…

Mas, acima de tudo, Cores & valores é um ótimo disco.

Tiago de Mello

[1] Utilizo aqui a ideia de conceito de Luc Ferrari, e mais à frente voltarei a ela…

[2] goo.gl/GgOXmr

[3] goo.gl/mdnVrE

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